sábado, 24 de novembro de 2012

Depressão




Paredes sujas, enrustidas por um reboco fajuto. Lugar inóspito, impróprio... Talvez seu quarto já tenha sido mais habitável. Hoje, baratas locomovem-se em meio a podridão. Hoje, seus mais obscuros pensamentos são obtidos neste lugar. Seu corpo, antes forte e esbelto, agora mais parece um saco de ossos podres. Também, há quanto tempo ele já deve estar por lá? Talvez duas semanas ou mais! E as persianas da Pequena e retangular janela do quarto fechadas desde então; tornado o lugar extremamente escuro, tanto no dia quanto na noite.
               Ele não consegue ver nada além da notável escuridão ao seu redor. Que sensação desagradável! Sentir que há alguma coisa para ser vista, apreciada, e só conseguir vislumbrar o obscuro... Mas o que há lá para ser apreciado? Um quarto sujo, numa casa desgastada pelo tempo.
O ar que esbarra em seu corpo é gelado. Gelado como a noite. Boa parte de seus pensamentos naquele momento parecem inúteis. Não há nada que ele possa fazer além de esperar. Mas por que esperar? Por que fingir estar bem? Perguntas às vezes se mostram difíceis... Às vezes não temos respostas ou, não queremos saber tais respostas. Simplesmente esperamos e vivemos. Por que procurar explicações?
Seu corpo doía muito, e não era uma dor suportável. Seu cérebro tentava manter a razão ou pelo menos a lucidez. Mas a exaustão havia chegado. Naquele momento ele não tinha forças. Nem para pensar, nem para movimentar seu corpo. Tentava lembrar-se de como tudo começou, percebendo que “A felicidade se transforma por meio de circunstâncias.” Numa Hora era feliz, Saudável e inteiramente apaixonado. Agora, apenas um homem demasiadamente fraco. Tanto fisicamente quanto psicologicamente. 
Com um esforço descomunal ele consegue se levantar da velha cama onde estava deitado de bruços. Primeiro, senta-se na beirada da cama, e logo após consegue ficar de pé (ainda que simples, para ele este fora um grande feito). Com passos lentos ele caminha até a janela retangular que fica no lado oposto ao da cama. Abre as persianas, e volta a deitar-se. O pequeno quarto, antes escuro, agora é iluminado pelos raios de sol de um dia que acabara de começar.  Um pensamento vem a sua mente no instante em que vê uma borboleta pousar delicadamente no vidro empoeirado de sua janela. “Por que ainda estou aqui?” Bem, ele não sabe. Na verdade, naquele instante, ele não sabe de nada. Ele só quer ficar ali, se espalhando em pensamentos sem sentido. Navegando em idéias surreais. Mas como ele poderia estar pensando em coisas “sem sentido”, se ele nem sabe qual é o “sentido” ou, pelo menos o que é um “sentido”. Talvez ele só quisesse inventar seu próprio sentido; talvez até modificá-lo se o mesmo já existisse.
Sua barriga ronca. Já faz uns dois dias que ele não come nada. Bem, pense pelo lado positivo: ”Pelo menos não estou com sede”. Os pães secos que comia já acabaram e sua água já está nas ultimas também, logo não vai ter nada para beber. Ele só saía do quarto para comer; depois que acabou seu estoque de pães ele não sai mais de lá. Antes, tinha de passar por um pequeno corredor até a cozinha. Agora só levanta de sua cama para abrir as persianas, e beber água da garrafa transparente que fica sobre a escrivaninha de seu quarto. Agora jaz ali, numa casa velha do subúrbio da cidade, um homem doente.

Um comentário:

Zilda Santiago disse...

Muito bom texto!!!Parabéns!!!